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Relato de uma infelicidade

Oi, pessoa!
            Hoje eu vou falar um pouco sobre mim e minha vida. Tenho 20 anos, e muitas pessoas não sabem, mas sofro com vários traumas na minha vida. Sou muito insegura, tanto na minha vida profissional, como na acadêmica, e isso provocou vários problemas durante meu processo de amadurecimento.
           Como eu era insegura, nutria uma falsa segurança para poder lidar com todos os problemas que a família e a religião me provocavam, e somando ainda com a vida acadêmica que chegou logo após. Tive uma série de erros que não consegui lidar de outra forma. Como eu era insegura, nem sempre dava minha opinião verdadeira e não tinha forças para sair dos círculos sociais que me faziam mal, fazendo com que na hora de expor minhas ideias, eu joguei tudo para cima e saí correndo.
          Quando eu tinha nove anos, tudo mudou na minha vida. Eu menstruei, eu era muito grande, e já consideravam meu corpo como "de mulher", com bumbum e peitos, mais fartos do que os da Keira Knightley. Infelizmente, essas mudanças chamaram a atenção de outras pessoas, pessoas essas que acabariam por mudar minha vida e acabar com minha infância.
           Nós tínhamos acabado de ter uma felicidade em casa, meu sobrinho amado tinha nascido no mesmo ano. Meus pais tinham uma fábrica de urnas funerárias, que trazia do Rio Grande do Sul madeiras para a confecção dos caixões. Um "irmão" da igreja, que na época mexia com colchões, pediu a ajuda do meu pai para fazer os caixotes dos colchões, então, pelo menos duas vezes na semana ele estava na fábrica para "ver" o serviço.
           Uma tarde ele chegou na empresa, e eu estava no primeiro andar, no escritório. Meus pais estavam extremamente atarefados pois um caminhão de mercadoria iria sair no dia seguinte para entregar no sertão da Paraíba. Eles pediram para eu abrir o portão rapidinho e de bom grado obedeci a minha mãe.
           Ele entrou com sua pickup prata e estacionou. Viu que eu estava sozinha enquanto eu fechava o portão, ele entrou e sentou no sofá que era na pré-recepção. Quando passei por ele e ia subindo a escada, ele me pediu um copo de água, Eu subi, peguei meu sobrinho que estava reclamando e desci para dar água ao "irmão".
           Como eu era muito novinha, não tinha absolutamente nenhuma malícia. Eu não percebi que ele queria se aproximar de mim. Ele pediu água pois a cozinha era afastada e restrita. Ele nem bebeu a água, que eu me lembre. Enquanto eu estava servindo, com uma mão só, e outra segurando meu sobrinho com meses de idade, ele se aproximou de mim por trás, colocou a mão nos meus seios e ficou se mexendo de forma absolutamente pornográfica, tentando se esfregar em mim.
           Eu não entendi o que era isso naquela época... Eu não entendia que naquele momento, mesmo sem de fato me estuprar, ele me violou. Violou minha inocência, acabou com minha infância e destruiu minha segurança. Eu pedi licença e saí correndo, minha mãe tinha me ensinado a ser educada.
           Passei aquele dia trancada no quarto que tinha na empresa. Não comi direito, me sentia estranha e mal e não sabia exatamente o porquê. Três dias depois aquele "irmão" voltou na empresa dos meus pais. Minha mãe não entendeu o motivo de eu me recusar a abrir o portão para ele. Eu pedia por favor para não deixar ele entrar, mas minha mãe não sabia do que tinha acontecido. Por fim, eu falei - Mãe, eu acho que ele tentou me agarrar...
           E foi assim que tudo acabou de mal a pior na minha saúde psicológica. Meu pai ficou transtornado, o homem sumiu da empresa. Meu pai reuniu todos os irmãos de ministério da igreja, pedindo para afastar aquele demônio de lá, proibindo dele entrar e ter acesso à outras crianças, mas, como sempre, não acreditaram no relato de uma criança.
           Eu relatei isso para todas as pessoas de mais alta confiança que tive na vida, incluindo um de meus namorados. Só porque terminamos de forma ruim, ele passou a desacreditar em meu testemunho. Chegou a falar para mim que, uma das irmãs da igreja (que diga-se de passagem, nem frequentava a minha casa) falou que tudo era mentira, e que na verdade eu era uma menina danada, que ficava sentando no colo daquele desgraçado, alegando ainda que eu teria sido o motivo dele ter terminado o casamento dele. Homem, mais de 45 anos na época, casado, descoberto após o meu fato que ele teria feito muito mais do que fez comigo em garotas no sertão da Paraíba e Pernambuco, também da igreja.
          Ironia uma "irmã" da igreja olhar para essa situação e apontar para mim, como responsável de uma situação como essa. Pior ainda é o meu relacionamento de quase três anos, vendo o que eu sofri e o quanto eu chorava na igreja quando aquele verme aparecia, ainda ter coragem de me afirmar o que essa mulher falou, esperando que eu afirme essa idiota acusação.
          Por anos, minha dor ficou calada. Não era tratada, não conseguia "deixar fluir", não tive auxílio psicológico. Meu pais não sabiam o quão grave tinha sido. Eu não tinha malícia e maturidade para realmente falar o que houve, e foi assim que isso foi acabando comigo de pouco em pouco.
          Depois que entrei na universidade, conheci um outro ambiente, ambiente esse que não envolvia trabalho ou religião. Mulheres empoderadas, que falam de seus problemas e problemas sociais que nos afetam diretamente me deram a força para ir me descontruindo. Conheci o Anderson, que por mais que não seja psicólogo, nem nada, estudou bastante e pôde me ajudar a passar por esse processo de aceitação, repetindo que eu não tinha culpa e me dando força. Foi o homem que me proporcionou tanto aconchego e sensação de segurança que hoje somos casados.
          Eu ainda tenho resquícios desse trauma infincados no meu cérebro. Fico em alerta sempre, tenho vários problemas quanto a insegurança e tenho a Síndrome do Impostor, mas eu venho aqui contar sobre essa fase horrível da minha vida pois eu vejo tantas pessoas desprezando o relato de uma criança, e pior ainda, superestimando as pessoas, dando total confiança, sem ao menos conhecê-las que me deixa nervosa.
          Não deixem suas crianças perto de pessoas "conhecidas", essas pessoas podem acabar com o futuro de sua criança. Podem marcar elas tão fundo, que não vai adiantar psicólogo ou psiquiatra... Elas, assim como eu, vão ter que aprender a viver com isso. E não tem nada pior para um ser humano do que se lembrar todos os dias do dia em que o futuro acabou.

Desculpe se incomodei, mas a intenção foi essa.
Se passaram 11 anos, mas finalmente eu estou leve.


Edit: Depois de publicada esse relato, meu ex veio conversar comigo, explicando que na época do nosso término ele estava muito abalado, e só queria expor esse outro relato da "irmã". Ele disse que errou em não se corrigir imediatamente, mas achou que eu conseguiria deduzir que ele estava apenas supondo.
       

Comentários

  1. Força mulher, essa e tua história e faz parte de quem você é, não tem nada de errado e você não precisa pedir desculpas porque como você mostrou, errado é quem cometeu essa agressão e quem acoberta esse tipo de maldade, essas pessoas precisam se conscientizar. E você é maravilhosa e incrível, obrigada por se abrir aqui e mostrar que esse tipo de situação não é normal e a culpa não é da vítima.

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    1. Obrigada! Você não sabe como é importante ler esse tipo de apoio.

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  2. Força Monik, conheci você na fase da infância e era muito amiga da minha irmã Sara e nunca soubemos disso. ..Fico indignada com a facilidade que as pessoas tem de culpar crianças por crimes hediondos(pois assim considero) que os tais "irmãos" cometem nesse meio . Hoje como mãe jamais deixo meu filho com um simples conhecido só porque é da igreja. ..ou qualquer uma outra roda social. Parabéns nike você é uma guerreira incrível e maravilhosa

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    1. Vamos nos juntar e tomar conta das nossas crianças. Essas coisas não podem ser abafadas e apagadas. Precisamos falar! <3

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  3. Você foi forte e corajosa relatando isso, e não há porque se desculpar, isso serve de exemplo pra todos, que os mais próximos de nós e os que mais aparentemente parecem ser inocentes e homens de bem, são os mais perigosos em um momento como esse... Não pode generalizar mas também não pode ficar 100% despreocupado. Temos que vigiar a todo instante, e quando alegam que uma criança está mentido, no fundo, eles sempre sabem que é verdade, porque criança não mente, criança e sincera, mas infelizmente, para algumas pessoas e ainda mais no ministério nos dias de hoje, há questões mais importantes do que acreditar em uma criança que não teria motivos algum para inventar uma história tão séria. É triste, de se revoltar com tamanha desumanidade, porque roubar a inocência de uma criança seja lá como for, e ainda mais desse modo, é desumano. Precisamos vigiar e cuidar das nossas criancas e adolescentes tb, pois infelizmente, isso vem se tornando comum. É de causar repulsa total... Mas o tempo passou e vc venceu, feridas se fecham, a cicatriz sempre vai estar lá, mas fechada. Vc foi forte e muita corajosa, e jamais teria culpa nisso. Parabens por quem vc é é se tornou! Vc venceu, e seja lá que fim esse demônio levou, o pior ainda há de vir pra ele...

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    1. Li seu comentário e chorei! Não sei como me ajuda a saber que cada dia mais estamos unidas e tomando conta das que estão a nossa volta. Obrigada!!

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